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O DEMÔNIO SE OPÔE A DEUS SALVADOR

 

          Na verdade tudo o que Deus criou segue um desígnio unitário, em que cada parte influencia o todo e cada sombra tem uma repercussão de obscuridade sobre todo o resto. A teologia será sempre imperfeita e incompreensível, até que se decida por a claro tudo o que se refere ao mundo angélico. Uma cristologia que ignore satanás é raquítica e não poderá nunca compreender o que a Redenção trouxe.
         Voltemos ao nosso tema sobre Cristo, centro do universo. Tudo foi feito para Ele e por causa d’Ele: nos céus (anjos) e na terra (o mundo sensível cuja cabeça é o homem). Seria belo falar só de Cristo; mas seria contra todos os Seus ensinamentos e contra a Sua obra. Por aí nunca chegaríamos a compreendê-lo.
A escritura fala do Reino de Deus, mas também do Reino de Satanás, e fala do poder de Deus, único criador e Senhor do Universo; mas também fala do poder das trevas; fala dos filhos de Deus e dos filhos do diabo. É impossível compreender a obra redentora de Cristo sem ter em conta a obra desagregadora de Satanás.
        
Satanás era a criatura mais perfeita saída das mãos de Deus; foi-lhe dada uma reconhecida autoridade e superioridade sobre os outros anjos e, pensava ele, também, sobre tudo quanto Deus estava a criar e que ele procurava compreender, mas que na realidade não compreendia.
Todo o plano unitário da criação, com efeito, estava orientado para Cristo: não poderia ser revelado em toda a sua clareza antes do aparecimento de Cristo no mundo. Daí a rebelião de Satanás, que queria continuar a ser o primeiro absoluto no centro da Criação, ainda que em oposição aos desígnios que Deus estava a realizar.

Por isso os seus esforços para dominar o mundo, (Todo o mundo está sob o poder do Maligno, 1 Jo 5,19) e de sujeitar o homem ao seu serviço desde os nossos primeiros pais, querendo que lhe obedeçam a ele, em oposição ás ordens de Deus. Conseguiu-o com os nossos primeiros pais Adão e Eva, e contava consegui-lo também com todos os outros homens ajudado pela terça parte dos anjos que, segundo o Apocalipse, o seguiram na rebelião contra Deus.
        
Deus nunca renega as suas criaturas. É por isso que Satanás e os anjos rebeldes, embora distanciando-se de Deus, continuam a conservar o seu poder e a sua categoria (Tronos, Dominações, Principados, Potestades...) embora façam mau uso dele. Não exagera Santo Agostinho ao afirmar que, se Deus desse toda a liberdade a Satanás, nenhum de nós ficaria com vida. Não nos podendo matar, procura fazer de nós seus sequazes, em oposição a Deus, tal como ele está em oposição a Deus.
        

Surge então a obra do Salvador.

Jesus veio para destruir as obras do diabo (1 Jo 3,8), para libertar o homem da escravidão de Satanás e instaurar o Reino de Deus, depois de ter destruído o reino de Satanás. Mas entre a primeira vinda de Cristo e a Parusia (a 2ª vinda triunfal como juiz) o demônio procura atrair para si o maior número de pessoas possível: é uma luta desesperada que ele conduz, sabendo-se antecipadamente vencido e sabendo que lhe resta pouco tempo (Ap 12,12).
É por isso que Paulo declara com toda a clareza que não é contra adversários de carne e sangue que temos que lutar, mas contra os Principados, contra as Potestades, contra as Dominações deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos (os demônios) espalhados pelos ares. (Ef 6,12).
        
Repare-se ainda que a Escritura fala sempre de anjos e demônios (aqui em particular refiro-me a Satanás), como seres espirituais sim, mas também pessoais, dotados de uma inteligência, de uma vontade, de uma liberdade, de um espírito empreendedor.
Eram completamente aqueles teólogos modernos que identificam Satanás com a idéia abstrata do mal: isto é heresia autêntica, ou seja está em aberta oposição à Bíblia, à patrística, ao magistério da Igreja. Trata-se de verdades que nunca foram postas em dúvida no passado, e, por isso mesmo, privadas de definições dogmáticas, excetuando as do IV Conílio de Latrão: O diabo (isto é, Satanás) e os outros demônios foram criados bons por Deus, mas tornaram-se maus por sua própria culpa. Aquele que ignora Satanás nega também o pecado e não percebe nada da obra de Cristo.
        

Sejamos ainda mais claros:

Jesus venceu Satanás através do Seu sacrifício; mas, antes deste, pelo Seu ensinamento: se Eu, pelo dedo de Deus, expulso os demônios, significa que chegou até vós o Reino de Deus (LC 11,20). Jesus é o mais forte, aquele que amarrou Satanás (Mc 3,27) espoliou-o e sufocou o seu reino que está a caminhar para o seu fim (Mc 3,26).
É assim que Jesus responde, aqueles que o avisaram da intenção de Herodes de O matar: Ide dizer aquela raposa: vede, Eu expulso os demônios hoje e amanhã; no terceiro dia terminarei (Lc 13,32). Jesus dá aos Apóstolos o poder de expulsar os demônios, em seguida estende este poder aos 72 discípulos e, por fim, confere-o a todos os que acreditarem n’Ele.
        
O livro dos Atos dos Apóstolos, testemunha como os apóstolos começaram a expulsar os demônios depois da descida do Espírito Santo; e assim continuaram os cristãos.
Já os mais antigos Padres da Igreja, como por exemplo Justino e Ireneu, expõem com clareza o pensamente cristão sobre o demônio e sobre o poder de o expulsar, sendo seguidos por outros padres, entre os quais cito Tertuliano e Orígenes. Basta citar estes 4 autores para envergonhar tantos teólogos modernos  que praticamente não acreditam nos demônios ou não falam absolutamente nada sobre eles.
        
O vaticano II lembrou fortemente os ensinamentos contidos na Igreja. Toda a história humana é marcada por uma luta tremenda contra o poder das trevas, uma luta começada desde a origem do mundo (GS 37). O homem tentado pelo Maligno desde a origem da história, abusou da sua liberdade levantando-se contra Deus e desejando conseguir os seus fins sem ter em conta o próprio Deus. Receando reconhecer Deus como seu principio, o homem violou a ordem estabelecida em vista ao seu fim último (GS 13).
Mas Deus enviou o Seu Filho ao mundo, para, por Seu intermédio, libertar o homem do poder das trevas e do demônio (AG 1,3). Como é que aqueles que negam a existência e a atuação ativíssima do demônio podem compreender a obra de Cristo? Como poderão compreender o valor da morte redentora de Cristo? Baseando-se nos textos das Escrituras, o Vaticano II afirma: Cristo pela sua morte libertou-nos do poder de Satanás (SC 6); Jesus crucificado e ressuscitado venceu Satanás (GS 2).
        
Vencido por Cristo, Satanás combate contra aqueles que o seguirem, os fiéis; a luta contra os espíritos malignos continua, e durará, como diz o Senhor, até ao último dia (GS 37). Até lá todo o homem é envolvido na luta, sendo a vida terrena uma prova de fidelidade a Deus; por isso, os fiéis devem esforçar-se por resistir as tentações do demônio e fazer-lhe frente nos dias mais difíceis.
Antes de reinar com Cristo glorioso, no fim da nossa vida terrestre que é uma só (não existe outra prova), compareceremos todos diante do Tribunal de Cristo, para dar contas do que cada um fez de bem ou mal durante a sua existência mortal, e no fim do mundo seremos conduzidos: os que fizeram o bem para a ressurreição da vida, os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação (Cf. LG 48).
        
Embora esta luta contra Satanás, abranja todos os homens e todos os tempos, não há dúvida de que, em certas épocas da história, o poder de Satanás se faz sentir mais fortemente, pelo menos a nível comunitário e de pecados em massa. Por exemplo, quando fiz os meus estudos sobre o Império Romano do tempo da decadência, foi-me posto em destaque o descalabro mortal daquela época. A carta de Paulo aos Romanos é testemunho fiel e inspirado desse fato.
Ora, encontramo-nos no mesmo nível devido, entre outras coisas, ao mau uso dos meios de comunicação social (que em si mesmo são bons), assim como ao materialismo e ao consumismo que envenenaram o mundo ocidental. Creio que Leão XIII, durante uma visão, recebeu uma profecia relativa a este ataque demoníaco específico.
        

De que modo o demônio se opõe a Deus e ao Salvador?

Querendo para si o culto devido ao Senhor e macaqueando as instituições cristãs. É por isso que é anti-Cristo e anti-Igreja. Contra a Encarnação do Verbo, que redimiu o homem fazendo-Se Ele próprio homem, Satanás serve-se da idolatria do sexo, que degrada o corpo humano e faz dele um instrumento de pecado. Por outro lado, macaqueando o culto divino, tem as suas igrejas, o seu culto, os seus consagrados, (muitas vezes com pactos de sangue), os seus consagrados, os seguidores das suas promessas.
Do mesmo modo, tal como Cristo deu poderes específicos aos Apóstolos, e seus sucessores, destinados ao bem das almas e dos corpos, também Satanás dá poderes específicos aos seus seguidores, que visam a perdição das almas e as doenças dos corpos. Adiantaremos mais sobre estes poderes quando falaremos do malefício.
        
Ainda uma reflexão acerca de um tema que merece ser aprofundado:

Se por um lado é falso negar a existência de Satanás, também é errôneo, segundo a opinião mais seguida, afirmar a existência de outras forças ou entidades espirituais, ignoradas na Bíblia e inventadas pelos espíritas, pelos que cultivam as ciências esotéricas ou ocultas, pelos adeptos da reencarnação ou pelos que defendem a existência das chamadas almas errantes.

Não existem espíritos bons fora dos anjos: nem existem espíritos maus fora dos demônios. As almas dos defuntos vão logo para o paraíso, ou para o inferno ou para o purgatório, como foi definido nos dois Concílios (Lyon e Florença). Os defuntos que se apresentam nas sessões de espiritismo, ou as almas dos defuntos presentes nos seres vivos, para os atormentar, não são senão demônios. As raríssimas exceções permitidas por Deus, são exceções que confirmam a regra. Reconhecemos porem que, neste campo, ainda não foi dada a última palavra, é um terreno cuja problemática ainda se encontra em aberto.
O Pe. La Grua fala de várias experiências verificadas por ele com almas de defuntos em poder do demônio e avança algumas hipóteses tendentes a explicar este fenômeno. Repito: é um terreno ainda a estudar a fundo; proponho-me fazê-lo noutra ocasião.
        
Alguns admiram-se da possibilidade que os demônios tem de tentar o homem ou o direito de possuir o corpo (embora a alma, nunca, a não ser que o homem lha entregue livremente), através da possessão ou vexação. Será bom recordar aquilo que diz o Apocalipse (12,7 e seguintes): E travou-se uma batalha no céu: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o dragão: e este pelejava também, juntamente com os seus anjos, Mas não prevaleceram, e não se encontrou para eles mais lugar no céu. O grande dragão, a antiga serpente, o diabo ou Satanás como lhe chamam... foi precipitado na terra juntamente com os seus anjos. O dragão vendo-se precipitado na terra perseguiu, A mulher vestida de sol de que nasceu Jesus (é claríssimo que se trata da SSma. Virgem) mas os esforços do dragão foram em vão. Foi então fazer guerra ao resto dos Seus filhos, os quais guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus.
        
Através de tantos discursos de João Paulo II sobre Satanás, refiro uma passagem que disse em 24 de Maio de 1987, durante a visita ao Santuário de S. Miguel Arcanjo: Esta luta contra o demônio que trava o Arcanjo S. Miguel, é atual ainda hoje, porque o demônio ainda está vivo e operante no mundo. Na verdade, o mal que existe, a desordem que reina na sociedade, a incoerência do homem, a divisão interior da qual o homem, a divisão interior da qual o homem é vítima, não são só a conseqüência do pecado original, mas também efeito da ação devastadora e obscura de Satanás.
        
Esta última frase é uma clara alusão á condenação de Deus em relação à serpente, conforme vem narrado no Gênesis (3,15): Porei inimizade entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a descendência dela: esta esmagar-te-á a cabeça.

 

O demônio já está no inferno? Quando se travou a luta entre os anjos e os demônios?

São interrogações às quais não se pode responder sem ter em conta pelo menos dois fatores: que estar no inferno ou não, é mais uma questão de estado do que de lugar. Anjos e demônios são puros espíritos; para eles a noção de lugar tem um sentido diferente da que nós lhe atribuímos. A mesma coisa vale para a dimensão do tempo; para os espíritos tem um sentido diferente do que tem para nós.
        
O Apocalipse conta-nos que os demônios foram precipitados na terra; a sua condenação definitiva ainda não se verificou, embora seja irreversível a escolha feita que separou os anjos dos demônios. Conservam ainda um poder autorizado por Deus embora seja por pouco tempo. É por isso que gritaram a Jesus: Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo? (Mt 8,29).
O único juiz é Cristo que associará a Si o Seu Corpo Místico. É assim que se devem interpretar as palavras de São Paulo: Não sabeis que julgaremos os anjos? (2 Cor 6,8). É em razão deste poder que os possessos de Gerasa se dirigiram a Cristo e suplicaram-lhe que não os mandasse ir para o inferno, mas que lhes permitisse entrar nos porcos (Lc 8, 31.32).

Quando um demônio deixa uma pessoa e é precipitado no inferno, isso é para ele como uma morte definitiva. É por isso que ele se opõe com todas as suas forças. Vai ter ainda que pagar todos os sofrimentos que causa ás pessoas com um aumento da sua pena eterna. Ao afirmar que o juízo definitivo, no que se refere aos demônios, ainda não foi pronunciado.
São Pedro é muito claro quando escreve: Deus não perdoou aos anjos que pecaram, e os precipitou nos abismos tenebrosos do Inferno para serem reservados para o Juízo (2Pd 2,4). Paralelamente, os anjos verão a sua glória aumentar pelo bem que fizerem; é por isso que é muito útil invocá-los.
        

Que espécie de incômodos é que o demônio pode causar aos homens, enquanto vivos?

 

Não é fácil encontrar obras que tratem de tal tema porque não existe, entre outras coisas, uma linguagem comum, aceite unanimemente.
         Há uma ação vulgar do demônio que toca a todos os homens: consiste em os atrair para o mal. O próprio Jesus aceitou a nossa condição humana, deixando–Se tentar por Satanás. (Esta é a ação nefasta ordinária a mais comum.)
         Há também (a ação nefasta extraordinária de Satanás), isto é, aquela que Deus lhe consente somente em determinados casos. Esta ação pode assumir cinco formas diferentes como:
1º - Os sofrimentos físicos causados por Satanás externamente.
2º - A possessão diabólica.
3º - A vexação diabólica.
4º - A obsessão diabólica.
5º - As infestações diabólicas.

 

Descrição a ação extraordinária de Satanás, (isto é, aquela que Deus lhe consente somente em determinados casos).

1º - Os sofrimentos físicos causados por Satanás externamente. Estes são os fenômenos que lemos em tantas vidas de santos. Sabemos como S. Paulo da Cruz, o Stº Cura de Ars, o Pe. Pio e tantos outros forma feridos, flagelados, sovados por demônios.
Não me alongarei sobre este tipo de ação porque nestes casos, como as vítimas não estando sujeitas a uma influência interna do demônio, não têm necessidade de recorrer a exorcismos. São pessoas conscientes da situação que intervêm pela oração. Prefiro descrever as outras quatro formas de ação, que interessam diretamente aos exorcistas.
        
2º - A possessão diabólica. É a tormento mais grave e surge quando o demônio toma posse de um corpo (não de uma alma), fazendo-o agir ou falar como ele quer não podendo a vítima resistir e não sendo moralmente responsável por isso. Esta forma de ação é também a que mais se presta a fenômenos sensacionalistas do tipo daqueles que se vêem no filme O exorcista ou do tipo dos sinais mais espetaculares indicados no ritual: falar línguas desconhecidas, demonstrar uma força amoral, revelar coisas escondidas.
         O Evangelho dá-nos um exemplo como possesso de Gerasa. É preciso compreender, que existe toda uma gama de possessões, apresentando grandes diferenças quanto à sua gravidade e aos seus sintomas. Seria um grande erro fixar-se num único modelo. Entre tantos pacientes, exorcizei duas pessoas totalmente possessas que durante a sessão de exorcismo estavam perfeitamente imóveis, sem dizer uma única palavra. Poderia citar vários exemplos de possessão com fenomenologias muito diferentes.

3º - A vexação diabólica designa distúrbios e doenças muito graves ou menos graves que, embora não cheguem à possessão, ocasionam uma perda de consciência, acompanhadas de atos ou de articulação de palavras de que a vítimas não é responsável.
A Bíblia fornece-nos alguns exemplos. Job não era vítima de uma possessão diabólica, mas os seus filhos, os seus bens e a sua saúde foram duramente afetadas. Também a mulher encurvada e o surdo mudo curados por Jesus, não tinham uma possessão diabólica total, mas a presença de um demônio estava na origem dos seus problemas físicos.
S. Paulo não era com certeza um endemoninhado, contudo era vítima de uma vexação diabólica que consistia num distúrbio maléfico: E para que a grandeza das revelações me não enobrecessem, foi-me dado um espinho na carne (tratava-se evidentemente de um mal físico), um anjo de Satanás para me esbofetear (2 Cor 12,7); não há dúvidas de que a origem deste mal era maléfica.
         As possessões ainda hoje são muito raras; contudo os exorcistas deparam-se com um grande número de pessoas feridas pelo demônio na saúde, nos bens, no trabalho, na vida afetiva.... É preciso ficar claro que o fato de diagnosticar a origem maléfica destes males (isto é, de saber se trata de uma causa maléfica ou não) e de a curar, não é de modo nenhum mais simples do que o de diagnosticar e curar as verdadeiras possessões; pode ser diferente o nível de gravidade, mas não a dificuldade em interpretar o fenômeno, nem o tempo necessário para o curar.

4º - A obsessão diabólica. Trata-se de ataques de improviso, por vezes contínuos, de pensamentos obsessivos podendo ir até ao racionalmente absurdo; mas de tal modo que a vítima não tem capacidade para se libertar. Por causa disto, a pessoa cativa vive num contínuo estado de prostração, de desespero, de tentação de suicídio.
As obsessões também influem quase sempre sobre os sonhos. Dir-me-ão que se trata de estados mórbidos, da competência da psiquiatria. Todos os outros fenômenos também se podem explicar pela psiquiatria, pela parapsicologia ou ciências similares; no entanto, existem casos que escapam totalmente a estas ciências e que revelam, pelo contrário, sintomas concretos de causas maléficas ou presenças maléficas. Só um trabalho teórico e pratico permite aprender a distinguir estas diferenças.

5º - Falemos por fim das infestações diabólicas: das casas, dos objetos, dos animais. Não me vou deter sobre este tema, uma vez que vou fazer alusão a ele ao longo do livro. Basta frisar o sentido que dou ao termo infestação; prefiro não o aplicar ás pessoas, em relação ás quais prefiro utilizar os termos: possessão, vexação, obsessão.

 

            Como é que nos podemos defender contra todos estes males possíveis?

 

Diga-se de imediato que, e muito embora a consideremos uma norma imperfeita, os exorcismos só são necessários, em rigor, segundo o Ritual, para os casos de possessão diabólica propriamente dita. Ora nós, os exorcistas, na realidade ocupamos-nos de todos os casos de influência maléfica.

No entanto, para os outros casos que não sejam os de possessão, deveriam bastar os meios de graça comuns: a oração, os sacramentos, a caridade, a vida cristã, o perdão das ofensas, o constante recurso ao Senhor, à Virgem Maria, aos santos e aos anjos. E é sobre este último ponto que desejo deter-me.
        
É com agrado que terminamos esta parte sobre o demônio, adversário de Cristo, falando dos anjos: são os nossos grandes aliados; devemos-lhes tanto que é um erro falar-se tão pouco deles. Cada um de nós tem o seu Anjo da Guarda, amigo fidelíssimo 24 horas por dia, desde o nascimento até a morte. Protege-nos incessantemente a alma e o corpo; e nós, a maior parte do tempo nem sequer pensamos nisso.
Sabemos também que as nações têm o seu anjo particular, assim como, sem dúvida, também há um para cada comunidade e por certo para cada família, ainda que não tenhamos certezas. Sabemos no entanto que os anjos são númerosíssimos e estão desejosos de nos fazer bem, um bem superior ao mal que os demônios se esforçam por nos infligir e pelo qual nos tentam arruinar.
        
A Escritura fala-nos muitas vezes acerca dos anjos nas várias missões que o Senhor lhes confia. Conhecemos o nome do príncipe dos anjos, São Miguel: há também entre os anjos uma hierarquia baseada no amor e regida por aquele influxo divino em que a sua vontade é a nossa paz  como dizia Dante.
Conhecemos também o nome de outros dois Arcanjos: Gabriel e Rafael. Um apócrifo acrescenta um quarto nome: Uriel. Através da Escritura conhecemos a subdivisão dos anjos em nove coros: inações, Potestades, Tronos, Principados, Virtudes, Anjos, Arcanjos, Querubins, Serafins.
O crente que sabe que vive na presença da Ssma. Trindade anseia por tê-la dentro de si; sabe que é continuamente assistido por uma mãe, que é a própria Mãe de Deus; sabe que pode contar com a ajuda dos anjos e dos santos; como é que se pode sentir só, ou abandonado, ou mesmo oprimido pelo mal?
Na vida do crente há lugar para a dor, porque é a via da cruz que salva; mas não há lugar para a tristeza. Está sempre pronto a dar testemunho a quem quer que o interrogue sobre a esperança que o anima (Cf. 1 Pd 3,15).
        
É claro que, embora o crente deva também ser fiel a Deus, deve temer o pecado. É este o remédio em que se fundamenta a nossa força, a ponto de S. João não hesitar em dizer: Sabemos que todo aquele que nasce de Deus guarda-o e o Maligno não lhe toca (1 Jo 5,18). Se a nossa fraqueza nos faz cair de vez em quando, devemos levantar-nos rapidamente através desse meio formidável que a misericórdia divina nos concedeu: o arrependimento e a confissão.   

 

 

 

 

 
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